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Ter filhos em tempos atuais. Parece estar mais difícil ou está de fato?

Foto do escritor: Lilian T. K. Yamamoto
Lilian T. K. Yamamoto
16 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 17 de set.

Olhar como as gerações anteriores cuidavam e educavam pode ser um exercício interessante. Era mais fácil para nossos avós e nossos pais?




"Fácil" ou "difícil" são palavras pouco apropriadas e até reducionistas para uma experiência tão complexa quanto ter filhos, considerando o momento histórico, econômico e social das famílias — para além da ideia romantizada do que seja uma família. Os fatores envolvidos são inúmeros: condições econômicas; prioridade para os estudos; acesso à informação, planejamento familiar, acesso a métodos contraceptivos, valores culturais, religiosos e familiares; inserção das mulheres no mercado de trabalho; rede de apoio...


Mas por que parece tão difícil ter filhos atualmente?

Do ponto de vista financeiro, tudo parece estar muito caro — e de fato está. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, criar um filho do zero aos 18 anos pode custar entre R$ 239 mil e R$ 3,6 milhões, dependendo da renda da família, e cerca de 30% do orçamento familiar passa a ser destinado aos cuidados com a criança. Segundo a análise da economista Giovanna Quintao, com base em dados da POF/IBGE, domicílios com renda acima de 8 salários mínimos gastam, em média, mais de R$ 4,5 mil/mês por filho, enquanto famílias com renda de até 2 salários mínimos gastam cerca de R$ 956/mês (diferença que escancara as desigualdades sócio-econômicas das famílias brasileiras).


Esse cenário financeiro ajuda a explicar um dado que o IBGE confirmou recentemente: 2024 registrou o sexto recuo consecutivo no número de nascimentos no Brasil, a maior redução dos últimos 20 anos.


Do ponto de vista social, as mulheres passaram a estudar mais e a conquistar espaço no mercado de trabalho. Os casais têm mais liberdade para optar por ter filhos ou não — o que antes era quase automático, hoje é decisão. O último Censo do IBGE (2022) apontou que a média de idade que as mulheres brasileiras engravidam do primeiro filho aumentou de 26 anos para 28 anos (desde o último Censo de 2010). Especialistas apontam que essa mudança no comportamento reprodutivo, somada aos ciclos econômicos, é uma das principais explicações para a queda da fecundidade.

E as crianças? Olhar para elas tem sido cada vez mais desafiador. Por quê?

A concepção da criança como uma “miniatura de um adulto" vem da Idade Média e predominou até o início do século XVII, conforme as obras do historiador francês Philippe Ariès. A ideia da infância como concebemos hoje é nova e reconhece essa fase como uma etapa do desenvolvimento com todas as suas peculiaridades — nunca essa fase da vida foi tão estudada.


Como consequência, temos um avanço na conquista de direitos das crianças e adolescentes como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) de 1990 - foi a primeira legislação da América Latina a reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos - e na sanção de políticas de defesa e prevenção anteriormente inexistentes como o Marco Legal da Primeira Infância (2016) que reconheceu a importância dos seis primeiros anos de vida.


Na contramão, esse excesso de informação trouxe um paradoxo: temos especialistas da infância que sabem muito, e uma geração de pais correndo para dar conta de tantos saberes.


Não é raro que cheguem ao consultório inseguros, confusos, tentando aplicar técnicas e seguir recomendações de algum “influencer". Deu certo? Ótimo. Não deu? Te digo que não é porque você como mãe ou pai fracassou. Claro que podemos nos basear, aprender e ter bons exemplos do que fazer, mas não podemos esquecer de testar primeiro, reconhecer limites e compreender que as necessidades de cada filho são únicas e precisamos estar atentos para identificá-las.


É certo que cada geração enfrentou seus próprios desafios, com as ferramentas e conhecimentos do seu tempo. A velocidade com que as mudanças estão ocorrendo também contribui para a sensação de estarmos um pouco perdidos e da necessidade de nos atualizarmos para não ficarmos para trás. Muito da educação das gerações passadas já não cabe mais, mas precisamos nos manter, antes de tudo, conectados com nossos filhos. Assim, o vínculo de cuidado é primordial e insubstituível: é afeto, é olho no olho, é colo em braço ou colo em palavras e conversas. Seguimos!


Sinta-se acolhido(a),

Lilian 🌸


Fontes:

  1. ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 1960.

  2. FADINI, Thiago. Quanto custa criar um filho no Brasil? Estudo indica R$ 441 mil em média. O Especialista (Banco Safra), 13 dez. 2021. Disponível em: https://oespecialista.safra.com.br/quanto-custa-criar-um-filho-no-brasil/.

  3. IBGE. Censo Demográfico 2022. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html.

  4. IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9050-pesquisa-de-orcamentos-familiares.html.


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